Arte, Filosofia e Direito.
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“Enquanto a matemática me dá problemas, o direito me dá dilemas. Os problemas me dão respostas corretas, os dilemas me dão respostas possíveis"
“A moldura não contém a obra de arte, a obra de arte vaza, e a gente precisa vazar, sair para outros cantos. Os vasos não contém, eles expandem"
- Professor Beclaute de Oliveira, em entrevista ao podcast Pelos Ouvidos da FDA (2021).
Por que o Direito?
“Na realidade eu queria astronomia”, afirma o professor. Beclaute se diz apaixonado pela astronomia, e que só não cursou a área porque, infelizmente, não tinha essa opção em Alagoas. O direito, segundo ele, foi um acaso, uma vez que tinha mais afinidade com a área de exatas, esperando cursar economia ou contabilidade, mas relata que sua escolha foi feita “jogando dados”, pois aos 17 anos não tinha certeza sobre o que fazer, mas hoje não se arrepende da escolha que fez.
DOCÊNCIA
”Sou professor há muitos anos, comecei a dar aula de matemática com 13 anos de idade ajudando meus colegas” Beclaute relata que terminou a faculdade em 1995, e que toda sua formação foi feita na UFAL, apenas o doutorado, feito na Universidade Federal de Pernambuco, e o pós doutorado, feito na Universidade Federal da Bahia, fugiram dessa linha, fazendo com que a transição tenha sido bastante natural. O professor se diz imensamente feliz por fazer parte da equipe docente da FDA, uma vez que seus professores de formação hoje são seus colegas de trabalho. Beclaute conta que em 2008, quando ingressou como professor, foi um momento de muita alegria, já que entrou depois da aposentadoria do professor de Processo Francisco Wildo, ficando com o desafio de ministrar a disciplina que seu grande mestre ensinava, sendo uma honra estar no lugar dele.
REPRESENTATIVIDADE E DIVERSIDADE
“Uma borboleta no meio das mariposas, tende a agir como a mariposa”
Beclaute afirma que na sua época o curso de Direito não era muito badalado como é agora, segundo ele, os cursos mais concorridos eram de engenharia química e informática, devido a chegada da Braskem. Tudo muda com o surgimento de concursos públicos, tornando o curso de Direito mais homogêneo do ponto de vista racial e econômico, o professor conta que viu toda essa transição e é categórico ao falar da importância da política de cotas para a representatividade “A gente tem essa tendência de olhar a realidade como se fosse uma realidade de espelhos, então quando a gente não se vê nesse espectro tendemos a agir como se fossemos mariposas, embora sejamos borboletas. Precisamos ter borboletas entre as mariposas para que possamos nos enxergar”. Diante disso, pontua que as cotas têm o papel de tornar a universidade mais plural, e que todo esse processo é uma desconstrução que demanda tempo, uma vez que somos moldados por um universo que mostra um espectro muito padronizado da realidade “Somos únicos como espécie humana, mas somos diversos”
Ao ser questionado sobre como essa ideologia de diversidade é abordada na FDA, Beclaute diz afirma que “A diversidade foi imposta, e ainda bem que foi”. Declara que a questão de coloração não era discutida em sua época, sendo usado muitas vezes como exemplo por ter passado “pelo filtro normal”, o que demonstra o preconceito, ainda em voga, contra alunos cotistas. Outro ponto destacado pelo professor é o fato de que a própria universidade é uma política pública de inclusão, que começa de fora, frisa ainda que há um complexo de situações que dificultam e criam barreiras de acesso, para mulheres e negros, as mulheres tem um empecilho muito grande, uma vez que a estrutura social impõe padrões, como a maternidade, interferindo, muitas vezes, em suas carreiras profissionais “Nós temos cinco professoras na FDA, cinco de quarenta professores. Dessa cinco, quatro são doutoras e dessas quatro, apenas três em direito” o professor traz esse dado para mostrar a discrepância quantitativa de gênero que ainda hoje é uma realidade social que torna invisíveis mulheres do mundo inteiro. Por isso, Beclaute volta a frisar a importância da universidade para a mudança desses padrões, uma vez que trazer a diversidade, que é uma conquista nova, para dentro dos muros institucionais mostra que a universidade é o repertório para conservar e mostrar a pluralidade na UFAL/FDA.
LITERATURA
“Quando cheguei no curso de direito, era muito arredio a literatura, não gostava de arrodeios”, disse Beclaute. Mas hoje isso mudou completamente, o professor conta que é poeta e que posta seus escritos em suas redes sociais. Afirma que quando chegou na faculdade a leitura foi algo inevitável, e que dois autores o transformaram, o primeiro, São Tomás de Aquino, foi tão significativo que o homenageou dando seu nome ao primogênito, o segundo foi Padre Antônio Vieira, que o impressionou com sua riqueza metodológica, que segundo Blecaute, é o autor mais fantástico dentre os que conhece.
“Toda construção do direito, é uma construção humana que vem da literatura”
Beclaute ressalta a importância da literatura para a fluidez da escrita, principalmente para o advogado, que fala pelo outro e conta suas histórias, evidenciando que a leitura de livros sobre Filosofia do Direito e Teoria Geral do Direito são essenciais para o jurista, uma vez que, em suas palavras “ O Direito muda, me formei com um Código Civil que não existe mais, o que fica é quantidade de conhecimento que fomos capazes de reter de fundo. Então estudar Teoria do Direito, Filosofia do Direito, não é suplementar, é fundamental para vida de vocês como profissionais. A literatura, a teoria geral fica, a parte dogmática muda”
ENSINO PÚBLICO
“O ensino público não é uma gentileza, é, em todos os sentidos, uma forma de fazer com que a população possa construir sua identidade e sua história"
Beclaute se diz triste com a atual crise que atinge o ensino público brasileiro, que antes atingia de forma mais contundente a área de humanas e que hoje ganhou uma proporção geral, afirmando que os cortes são trágicos, uma vez que cada pesquisador que desiste ou vai embora, cada aluno que deixa de estudar, é uma perda para a sociedade como um todo “Quando você tira o professor da sala, impede que os alunos sonhem, eles perdem as perspectivas de horizontes. O que nos torna humanos não é nossa capacidade de raciocinar, é nossa capacidade de sonhar, e a universidade dá essa oportunidade para alunos e professores” Tudo que vem acontecendo, segundo Beclaute, é um projeto de elitismo, que culmina numa sociedade estratificada.
PANDEMIA
Ao falar sobre as dificuldades que o período pandêmico traz a tona, Beclaute relata que a interação entre alunos e professor sofreu um baque muito forte com o ensino a distância, uma vez que nesse período o silêncio reina nas aulas, tornando-as quase monólogos, empobrecendo o ensino para ambas as partes. “A universidade é construída num espectro dialético, por isso é importante que levemos desafios para os professores, pois o professor cresce com isso… A dúvida que você levanta pode estimular a dúvida de outras pessoas. A visão de mundo dos alunos é importante para que os professores possam interagir, é fator primordial para permanência e renovação da universidade. Por isso, perguntem!” Beclaute é contundente ao afirmar que a participação é uma expressão democrática que não pode ser perdida, principalmente para o direito.
FACULDADE DE DIREITO DE ALAGOAS
"Eu só tenho a agradecer a universidade, ela fez tanto por mim. Ela me fez em todos os aspectos, me construiu como aluno, pesquisador, professor. Nada o que eu faça será tão grande como o que ela fez por mim”
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Beclaute diz que tem muito orgulho de apresentar e representar a FDA onde quer que vá, já que foi essa faculdade que proporcionou e proporciona momentos inesquecíveis de sua vida, e até muitos momentos engraçados ao lado de seus colegas, como o registro de uma dia de chuva com seu amigo e colega de docência Adrualdo, no qual dividiram um guarda-chuva das meninas super poderosas. Beclaute conta que esse é apenas um dos tantos momentos engraçados e emocionantes que a Faculdade de Direito de Alagoas propiciou em sua trajetória.
Finaliza dando algumas sugestões aos calouros da FDA: “Vejam o amanhã como horizonte e horizontes são possibilidades. Sonhem! Futuro é um tempo verbal, o curso é muito aberto, podemos caminhar para vários horizontes, estejam abertos para eles, lembrem que a vida é singular, mas se constrói no plural, e essa pluralidade é fundamental na caminhada. Tenham somente obrigações com vocês mesmos, procurem ser felizes com o que vocês gostam, construam seu próprio caminho!”
Todas as falas e citações foram retiradas da entrevista com Beclaute Oliveira para o podcast Pelos Ouvidos da FDA (2021). Para conferir a entrevista completa e ouvir esse e mais episódios, acesse o podcast aqui.
Parabéns pela iniciativa! Na parte Docência não seria o correto "Sou professor há muitos anos"? Há ainda um pequeno equívoco: o professor referido pelo entrevistado é Francisco Wildo, e não Francisco Ivo.